Na colina, Caim ficou a esperar. Nalgum momento avistaria Abel e seu rebanho. A cantilena da flauta seria audível a poucos metros, suficiente sinal para que Caim pudesse se preparar para a batalha. O batimento cardíaco estava acelerado, suas mãos tremiam levemente e o plano, metodicamente estudado durante dias de inveja, algo não muito sofiscatido, uma pedrada na nuca, a colina era farta de pedras soltas, se embaralhava com o desejo pela mãe. A loucura é a sanidade declarada de alguém que justifica a si mesmo como um conceito absoluto. A dúvida não está no radar de Caim e a convicção sólida de que matar era a melhor maneira de lhe dar com o conflito, era sua bandeira, drapejada pela rudeza.

            Abel guiava seu rebanho por um caminho vicinal ao norte da colina. Tinha preferência por locais próximos a riachos para que cada ovelha saciasse a sede. Diligente, limpava os animais dos carrapichos que impregnavam as patas ao atravessarem os campos. Sempre mantinha o cajado a mão direita, atento aos coiotes. Apesar da vigilância em boa parte do tempo, o sono fazia com que Abel perdesse algumas ovelhas para os astutos predadores, o que o deixava melancólico por dias. Antes de subir a colina, começou a tocar uma melodia alegre a frente do rebanho. O cântico de seu funeral.

Caim. Como vai irmão?

– Normal. O que é isso?

– É um instrumento do Senhor. Assopro e ouço vida. O que faz aqui?

– Nada. E você?

– Aquele rebanho não indica resposta?

– Poderia estar fazendo outra coisa sem mexer no rebanho.

– Tenho responsabilidade irmão. O Senhor a me deu.

– Por que tanto Senhor?

– Quê?

– Por que você fala tanto Nele?

– Porque sim. O incômodo é seu irmão, não meu.

– Vim à essa colina sentir o vento.

– Poderia ter respondido isso na primeira vez que perguntei.

– Quis responder agora. O incomodo é seu também.

– Poderíamos ser irmãos ao menos uma vez.

– Não tenho interesse.

– Você é muito bonito para ter amargura no coração, Caim.

            Abel toca de leve o ombro do irmão e sorri. Caim o fita com desprezo, menor que a minhoca que ele despedaça com a enxada. Antes de prosseguir, Abel fala, mas sem olhar o irmão:

Teus olhos revelam desejo quando eles repousam sobre nossa mãe. Sabes que é loucura o que imagina, não sabes? Não faça tamanha loucura, e nem exponha ao opróbrio a honra de nosso pai. O pecado jaz a porta e o teu desejo é contra você. É sua responsabilidade dominá-lo.

            Abel chama as ovelhas e continua com a jornada, sem assoprar a flauta dessa vez. Caim fica impotente diante da descoberta do irmão. Sente-se tão indefeso que o coração aos pulos o leva sentir uma forte raiva. Então decidi cumprir o objetivo para o qual subiu a colina. Aonde pisava havia pedregulhos ocultos pela relva – ele sabia que nesse ponto havia um meio tão sólido quanto sua certeza em machucar. Escolhe um pontiagudo e vai correndo em direção a Abel. Acerta-o na nuca, antes desse se virar. Abel cai no chão, o que espanta as ovelhas que se dispersam pelo caminho. O coitado fica se revirando no chão, gritando ai e sugando a saliva de tanta dor. Caim, ofegante, senta sobre as costas do irmão, prendendo as mãos da vítima com os joelhos, e começa a bater com a pedra na nuca dele. Os miolos explodem no rosto de Caim; selvagem, continua a bater, descarregando a raiva de se sentir excluído durante anos. Depois que a cabeça de Abel se tornou um pedaço de carne derretido, Caim se levanta e joga a pedra. Começa a chorar e gritar alto, puxando os cabelos e chutando o chão. Passada a catarse emocional, sentou-se sobre a relva, taciturno, e ficou pensando um pouco enquanto o sangue secava sob seu rosto.

            Enterrou o cadáver de Abel debaixo de um carvalho. Pôs a flauta sob o monte de terra. Guiou as ovelhas até o celeiro, ao lado da tenda, depois de ter lavado o rosto no riacho.

Onde está seu irmão?

– Não sei pai. Não sou tutor do meu irmão.

– E essa mancha de sangue na cintura?

– Me machuquei.

– Pelo menos você viu o seu irmão por aí?

– Já disse que não sei onde ele está e nem o vi hoje.

– Do mesmo modo que você se machucou não é?

– Me deixe em paz velho.

Caim desce até a sua tenda. Ajambra seus pertences sobre o jumento e parte sem rumo.

            À noitinha, acampa perto de um bosque. As colinas no horizonte parecem chocalhos, envoltos em estrelas e banhados pelo luar. Depois de comer algumas hortaliças ao redor da fogueira, deita-se sobre uma manta e fica contemplando o bruxulear da chama. A tristeza lhe dá sono, e a culpa o faz sonhar.

            Rostos de ovelhas povoam o céu. Os olhos delas, negros como azeitonas, estão sobre ele. Caim enxerga tudo ondulante, como se estivesse dentro de uma fogueira. Então a multidão de rostos começa a falar em uníssono:

Onde está seu irmão Abel? O sangue dele clama a mim desde a terra.

– Não sei onde ele está. Acaso sou tutor do meu irmão?

– Por ter derramado o sangue de teu irmão, porei um sinal sobre ti. Andarás errante sobre a terra e maldito será aquele que te matar.

            As bocas que falaram se abrem agora e do interior delas sai um fogo. Caim é marcado por uma chama que queima na sua testa. Ele cai prostrado de dor. Após a ardência, se levanta e vê Abel com uma coroa e uma espada, sorrindo como sempre.

             Ele estava rindo novamente. Descobriu que sua alegria não era de todo loucura. Parte dela era sua natural reação a um mundo incrível demais para ser digerido num só momento. As nuvens criavam curvas quando os trovões as chicoteavam no céu escuro; os tons da cantilena das cigarras eram discerníveis, apesar da idêntica cadência; as árvores soltavam gosmas marrons que ficavam coladas na casca enrugada; a ovelha fazia um som hipnótico com a boca quando mastigava grama; o riacho era pacífico na sua agitação. Abel percebia esses cenários quando sentado na relva ou quando descansava os lábios depois de tocar a flauta por algum tempo. Em tempos de grande necessidade, quando era obrigado a sacrificar alguma ovelha, subia a um bosque e chorava, sentado de cócoras, com as mãos sob os joelhos, deixando o sangue cair na terra. Voltava para tenda e misturava sal e água com a cor do sangue já envelhecido nas mãos. Pintava o rosto e ia dançar um ritmo sem sentido, no meio da campina. Seus pais notavam a diferença que o filho ostentava, mas se calavam e refletiam no coração sobre qual espírito o Senhor havia dado a ele.

         Caim se revirava na cama. Sua raiva tornava a noite dia e o sono disposição. Levantou-se e foi capinar iluminado por uma tocha, reclinada num poste talhado a pedra. Enquanto mexia com o solo pensava sobre a distância dos seus pais em relação a ele. Sua inflexibilidade deixava Adão e Eva com testas de preocupação. As discussões terminavam mau e Caim sempre se sentia incompreendido. Abel era querido, até nas suas excentricidades, mas ele, pouco era reconhecido ainda que trabalhasse mais do que o fazia. O desejo por atenção o levou a imaginar alguém em sua cama, alguém que o apertasse contra o peito e beijasse seus lábios, afastando fantasmas de solidão. O instinto direcionou a intenção à mãe, tão saudável para idade que tinha. Quando ele começou a cobiçar, seus escrúpulos de filho arrefeciam o fogo, e ele pensava em outra coisa, afastando o devaneio. Com o passar do tempo, o desejo crescia entre as pernas e ele o esfregava até se sentir exausto e molhado, dormindo em seguida. O perigo crescia a cada noite em que via a mãe se banhar no riacho  – os olhos dele acompanhavam a curva que as águas faziam nos seios, no quadril, nas pernas; o cabelo negro e luzidio era tão eloqüente que ele não agüentava, saía, indignado com a sorte lhe dada – Eva era sua mãe. O respeito deveria prevalecer em qualquer instância.

       Capinar não ajudou. Foi ao riacho se refrescar do suor que corria nas costas. Viu Abel com as ovelhas, caminhando até o bosque, acompanhado de Adão, o velho. Sentiu no estômago a vontade de ir até a tenda, ver a mãe deitada. Foi o que fez.

       Ficou recostado à porta, olhando a mulher nua. Queria, mas não queria. Ainda lhe faltava completa consciência da loucura que o envenenara, só atendia a impulsos. Ficara sob um estado congelante, ainda que queimando por dentro. Não fez nada, somente contemplava. Quando decidiu por algo, caminhou até a cama. Mas já era tarde demais, pois Eva despertou com a presença dele. Ao vê-la abrindo os olhos, correu em direção à porta, tropeçou no batente e caiu, batendo com o queixo ao chão, quebrando um molar. Quis gritar de dor, mas se calou com a mão, se levantando e correndo com todas às forças até sua tenda. Eva foi a ele perguntar o que havia acontecido e ele só negava. Ela tentou auxiliá-lo com o sangue que saia da boca, mas ele agradeceu e foi ao riacho novamente. Ela disse que um pouco de sal poderia adormecer o ferimento, após a ardência. Caim agradeceu novamente. Com Abel seria diferente, ele receberia tratamento especial, seria abraçado, receberia carícias e não uma ordem salgada, pensou. Abel retornava com as ovelhas, acompanhado do cansado pai. Adão abraçou Eva e foram para dentro enquanto Abel posicionava as ovelhas no celeiro. Amanhã será o seu destino, pensou Caim ao olhar o sorridente irmão.

Ele ficava sorrindo à toa. Talvez por sentir alguma alegria contida quando perto de alguém, talvez por simplesmente achar que há graça no que via. As ovelhas descansavam na campina que ondulava ao passar do vento. Carregava consigo uma flauta, rústica, mas bem talhada, que ora usava como meio para empurrar alguma ovelha, ora soprava, tocando melodias tranqüilas. Quando o sol se inclinou mais a sudoeste, as sombras pesadas, projetadas pela árvore, berço das ovelhas, diminuíam e o momento de mudar se aproximava. Foi urinar num arbusto, perto o suficiente para não perder de vista o rebanho. Cuspiu, limpou a boca com o braço e foi acordar as ovelhas com paciência.

O outro capinava com desprezo a terra vermelha. O rosto duro indicava pouca simpatia ou nenhuma em absoluto. Era de falar pouco. Quando o suor gotejava nos olhos, cerrava o sobrolho e limpava com o dorso da mão direita o olhar ardente. Blasfemava a criação quando via que a ideia de enxugar os olhos com as mãos sujas de terra não era das melhores. A visão demorava se reestabelecer e ele perdia a paciência. Quando calmo, amontoava as frutas e hortaliças em vários cestos, transportando-os para um casebre, depósito da colheita. Quando terminava o dia, acolhia duas maças, ia para o lago e as comia balançando as pernas sob a pele marrom das águas. Há algum tempo, desejava a proibição de conhecer a mãe no sentido sensual, no sentido repulsivo. Quanto mais imaginava, mais criava ondas com os pés no lago e arremessava o sobejo da maça a uma distância considerável.

Havia chegado o dia do Senhor. Nesse dia os sacrifícios eram requeridos em honra Àquele que criara o que recebia como oferenda. O pastor de ovelhas, Abel, se dirigia a um ponto pitoresco, um monte. Ali, amontoou pedras em formato de funil e deixou um espaço no topo. Nos braços carregou a melhor e mais dócil ovelha que arrebanhara. Antes de continuar com o rito, lutou consigo mesmo quanto ao fato de sacrificar. Tinha sérias dúvidas sobre o ato e seu significado. Tratava-se da melhor de suas ovelhas que dormia sobre o seu peito nos dias frios e ao lado nas noites oleosas de calor. Abel tinha facilidade em se afeiçoar. Era difícil simplesmente abrir mão do que é querido por um favor de Deus. Reprimiu a o ímpeto das dúvidas, decidindo sacrificar. Tinha idade o suficiente para saber que aquilo que representa o mundo para uma pessoa, um dia irá embora pela porta da frente. Pegou o cutelo, se ajoelhou até a ovelha, olhou-a nos olhos e passou a lâmina no pescoço do animal. O sangue jorrava do corte até os olhos da ovelha irem para o nada. Abel sentiu uma forte raiva, mas se conteve e começou a rir consigo mesmo. Pegou o corpo do animal, posicionou-o sobre o espaço reservado, cercou-o com gravetos, fez fogo e contemplou a fumaça que subia como um espírito.

Caim, o lavrador, subiu a outro monte para realizar o sacrifício. Guiava um jumento que transportava cestos pesados, cheios de frutas. Adorava as hortaliças, por isso, não as trouxera. Tinha reservas quanto ao sacrifício, mas não queria ficar atrás do irmão Abel. Ele imitava o irmão só para ter contato mais próximo com a mãe e então praticar o que planejava. Amontoou pedras e formou um altar mais espaçoso. Juntou com zelo as frutas e deixou-as ali, sob o toque da brisa e à vontade de Deus. Sentou-se no chão, mastigando morangos e cuspindo os raminhos da fruta. O sacrifício nada significava a Caim e a falsidade que adotava não perdia em nada no que concerne à rudeza que mantinha na capinagem.

O Senhor se agradou de Abel e rejeitou a Caim. O Senhor falava naqueles tempos. E alguns homens ouviam nos seus corações as palavras de Deus. Caim não tinha ouvido nada. Só ficou esperando algum tempo sentado e depois, entediado, foi embora, deixando as frutas no altar. Enquanto retornava, Abel veio ao encontro. Ele ria consigo mesmo, como lhe era de costume. Caim olhou o rosto do irmão sorridente. Continuaram caminhando. Não suportando mais o mistério, Caim perguntou o motivo do riso e Abel respondeu que agradara ao Senhor. Quando Abel contou a mãe o fato, ela o abraçou, pondo o seu rosto entre os seios, orgulhosa e cândida na intenção. Caim não recebeu abraço algum e sentiu-se desprezado. Desse dia em diante, Caim começou a imaginar outra proibição – o assassinato do irmão.

Vale a pena pensar em nada. Não preciso explicar tudo. Não preciso explicar nada. Nada.

Só quero curtir a minha confusão; só quero curtir as vozes e suas loucuras. Suas posturas.

Deixar o tempo fluir e ir de encontro a mim, recuperando o que perdi cada vez que menti. Tua verdade, tu podes medir.

Aqui, perto do lago, sinto saudades do que fui. Falta do tempo da novidade que de uma simplicidade, uma vaga lembrança intui. Ô perdido! O transeunte conclui.

É na margem do lago, sentado sobre concreto, respirando urina dos que ficaram aqui, contemplando os que estão lá, que senti um pouco da humanidade que resisto em revelar. Almejar.

O barro lambido pela água mostra o quanto minha sofisticação é morta. Gaia – a deusa da terra torta. A terra é a única rocha inclinada na órbita. E você tenta ser reto em cumprir uma agenda morta?

Só não quero admitir que a vida me é desconhecida. Que o pato grita uma canção estranha, e conhecida. Ela é familiar, mas não lembro de onde veio. Devaneio.

A polícia na rua e os carros rápidos trazem angústia. Quero afogá-los só para ter sossego. Tenho medo.

O lago dança e o meu rosto oscila. Não percebo a chuva que produz ondas, nem a paz que por um pouco fica. Isso, agora respira.

Perguntaram: se você pudesse descrever o Jesuino numa palavra, qual seria?

– Não-sei.

Qual palavra você usaria para descrever a sua vida?

– Não-sei.

Qual a sua perspectiva?

– Não-sei.

Por favor, não quero me explicar. Deixe-me com esse entorpecimento; com esse cobertor, deixa o calor dele me abrasar.

Dei as costas para não voltar.

Tardezinha. O céu estava tingido por um amarelo forte e magento. A visão do horizonte falava sobre um incêndio, estagnado, congelado, entrecortado por uma linha azul gelatinosa. Ficamos tomando café numa padaria cujas janelas davam para a rua onde carros e pedestres dividiam espaço. Fiquei esperando na mesa enquanto ela fazia os pedidos. Ao vê-la de pé perto do balcão, comecei a entrar em dúvidas: como ela conseguia ter tanta graça na voz e nos trejeitos? como ela fazia para que o jeans ficasse perfeitamente amoldado ao corpo, se convertendo numa segunda pele? aqueles cabelos …tenros a semelhança de sua carne…como ela conseguia ser tão linda?

Ela sentou sorrindo. Sorri de volta, envergonhado. Ela me perguntou o que foi ? e eu respondi nada. Depois ela acariciou minhas mãos com delicadeza, brincando com os pelinhos da cútis e me fazendo refletir sobre as coisas que não aconteceram – ter filhos, envelhecermos juntos. Ela perguntou novamente por que você tá tão quieto? e eu respondi por nada. Insatisfeita com a resposta, olhou nos meus olhos, sorrindo de novo. Desviei o olhar como se ácido fosse borrifado no meu rosto. Como ela conseguia fazer com que a sensação de estar exposto fosse onipresente em mim a partir de um gesto tão simples?

O café e os bolinhos foram entregues pela garçonete. Comemos em silêncio. Contemplei-a no ato de comer. Para mim havia uma declarada simplicidade no jeito dela mastigar e beber. Comovido diante dessa percepção, desviei o olhar. O que está acontecendo comigo?

Ela me olhou e sorriu mais uma vez, agora com uma migalha de bolinho no canto esquerdo da boca. Ousei: pedi que ela aproximasse o rosto com a desculpa de que um mosquito havia pousado em sua sobrancelha e então, quando sua boca estava ao alcance, lambi aquele canto, surrupiando aquele pedacinho. Ela riu e eu devolvi o riso, sem vergonha dessa vez. Os outros clientes lançaram olhar recriminador, como se fôssemos doidos.

Saímos da cafeteria, andando de braços dados na calçada, em silêncio. A relva, nos canteiros que divisavam as ruas, dançava ao cântico da brisa até o momento em que atravessamos a rua, pisoteando-a e acabando com a celebração. Ela fez a velha pergunta por que você está tão quieto meu amor? Respondi que você me faz ficar em silêncio. Ela olhou para mim zombeteira, acostumada a mais uma das frases bobas e de efeito que eu armazenava só para usá-las nos nossos encontros. Caminhamos mais alguns metros até uma esquina. Algo me dizia que o silêncio seria afugentado. Eu sabia que ela tinha algo para contar e não iria esperar um convite da minha parte para isso. Do nada, ela disparou a seguinte pergunta se você fosse o único imortal na terra, o que faria? Respondi nada e ela retrucou como nada? Você tem a oportunidade de mudar a história, vivendo várias eras e épocas, conhecendo lugares que ninguém poderia acessar? Como assim nada? 

 O que faz um homem mortal? Perguntei em sentido avesso na esperança de mudar a visão dela. O amor faz um homem ser mortal porque é esse sentimento que faz um ser imortal abrir mão de sua dádiva para morrer ao lado da pessoa a quem ama. Ela respondeu. Então, retruquei que se eu não te conhecesse, e sendo imortal, não faria nada. Inércia é um meio de morrer. Eu prefiro abrir mão da dádiva da imortalidade do que viver eternamente na solidãoO que adianta viver todas as épocas e eras e conhecer todos os lugares sem ter alguém para compartilhar? Ela sorriu e me beijou. Desprevenido, tentei ajustar os meus lábios aos dela, sem deixa-la perceber a surpresa. Após o beijo, passamos a esquina e continuamos pela calçada do bosque, curtindo o frescor emanado das árvores. E se eu for uma ilusão? E se eu te decepcionar? ela me perguntou totalmente séria, preocupadaRespondi que ainda preferiria a mortalidade. O veneno da ilusão seria extirpado com a sepultura, evitando que eu me tornasse um demônio. A minha eternidade, marcada pela mágoa, me faria o seu pior inimigo.

Ela ficou pensativa. Chega de filosofia, disse resoluta me conduzindo até um banco, dentro do bosque. Ficamos sentados, nos beijando, sentindo o frescor do ambiente e o calor do gesto.  Repentinamente, ouvi alguém gritando o meu nome. Olhei e vi o guarda do bosque ao lado do meu irmão. O que você tá fazendo aqui? Perguntei ao meu irmão. Ele não respondeu e me pegou pelo braço com força, bravo por ter sido forçado aquilo. O guarda ficou me observando com pena enquanto meu irmão me dava broncas. Desculpe senhor, o meu irmão disse ao guarda, ele tem uma doença, esquizofrênia. Já ouviu falar? A doença que faz você acreditar que aquilo que inventa é real? Pois é, ele inventou uma namorada.  Eu levei ele hoje pra toma café e quando dei bobeira, rapidinho ele escapou. Você não sai mais comigo sem tomar os seus remédios, entendeu? Olhei por cima do ombro e a vi assustada. Uma repentina febre tomou a minha garganta, deixando me sem palavras e triste. Não sou eterno só pude sussurrar. Ela chorava com os braços no colo, como se alguém tivesse desferido um soco no seu estômago. O meu irmão apertou o meu braço me transportando à força para o carro. Filho da puta, você estragou o meu encontro, cuspi nele. Imediatamente o guarda pegou o meu outro braço quase me erguendo do chão. Entrei no carro junto com meu irmão. O baque seco da fechadura da porta trouxe solidão. Quando olhei pelo vidro, o guarda estava parado, na calçada, contemplando-me com pena. Mostrei a lingua para ele, só para manter a indignação.  Antes de partir, eu a vi, ela ainda chorava no banco. O sol morria atrás dos prédios quando cheguei em casa.

Fim de tarde. O céu de Umuarama é coroado pelo passeio vertiginoso de muitos pássaros, e o vento traz consigo o prenúncio do frescor de outra noite melancólica. Alessandro andou aproximadamente 3 km para ir ao grande lago ao norte da cidade, localizado no jardim Aratimbó, onde a relva guarda consigo um verde jade semelhante ao tom da fotografia dos filmes de Scorcese. Adentrando ao lago, Alessandro vai até a ponte estabelecida a poucos metros da margem. Ficou na ponta, acariciando a borda enferrujada da barragem que fazia a separação entre seu corpo e as águas. Olhou para a plácida pele do lago, cortada pelo sereno velejo de dois patos. Respirou fundo, ergueu a cabeça e fixou o olhar no céu enquanto a brisa, vinda do bosque na outra margem, acendia no peito a angústia. Há poucas horas atrás, Alessandro foi informado pelo Dr. Eduardo que o tumor localizado na região do neo-córtex era maligno e as chances de sobrevivência, apesar da fatídica quimioterapia, eram poucas, senão nenhuma. Você pode se preparar porque a estrada será longa, o médico disse. No fundo, o profissional usou o adjetivo longa para indicar a eternidade que seria o destino de Alessandro, mas essa idéia causava estranheza para um ser na condição de mortal, pouco afeto a pensamentos profundos sobre o futuro. Sair desse plano e adentrar noutro desconhecido através dos braços frios da morte causava desespero. De repente o céu ficou insuportável para a contemplação e ele resolveu sair da ponte para contornar o perímetro. Seus familiares ficarão estarrecidos diante do mórbido diagnóstico, seus amigos irão orar e a namorada perderá as estribeiras. Talvez a eternidade seja melhor que o agora num sentido: o de não ter que falar sobre a morte com pessoas queridas.

Alessandro parou numa esquina ao final da calçada que circundava o lago. Caminhões e carros passavam a média velocidade; os postes já exibiam luz febril no asfalto; começava a fazer frio. Da esquina olhou até a outra ponta da calçada que dava para a avenida, encerrando-se o lago e começando uma rua cheia de folhas. Ele tem razão. A estrada é longa, pensou.  A eternidade está aqui. Sinto sua presença. Sinto o cheiro do pó que sou, levado pelo vento. Aqueles patos são os mensageiros de um novo mundo e o lago é o espelho do que há de vir. Estou indo embora e o que vou deixar? Ossos num caixão. Alessandro andou até a outra ponta da calçada, subiu a avenida, dobrou a esquina e seguiu o rumo de casa. Quando reuniu a família na sala de estar para contar sobre o câncer, antes de dizer alguma palavra, chorou na frente de todos. Tô com medo de morrer, ele disse ao receber o primeiro abraço.

Ontem minha mãe, Sra. Emília, perguntou:

Quando a gente morre, o espírito fica dormindo?

Não sei, respondi.

A gente devia saber como é que é, continuou ela.

Só morrendo pra sabe, respondi novamente.

Silêncio ficou no ar.

Cansada e com cara de satisfeita,

Emilia virou na cama e dormiu.

Deus poderia ressuscitar um morto,

 Para que ele contasse sobre a vida do lado de lá, pensei.

Mas os vivos não iriam compreendê-lo,

Porque quem vive sempre duvida das coisas.

Quem morre, já encontrou resposta final.

Só queria saber se a resposta final,

 Tem ligação com as perguntas.

E se não tiver?

Pelo menos, quem é morto descansa de dúvidas.

Quem é vivo se desassossega com a possibilidade

Da resposta.

Também cansado e insatisfeito,

Virei na cama e dormi.

O seminário sobre HIV/AIDS[1] e direitos humanos seria inaugurado em poucas horas. Chovia incessantemente sobre as dependências do Campus III da Universidade Paranaense, na cidade de Umuarama (PR). As águas não foram o divisor quanto a freqüência do evento, pois todos os convidados estavam presentes ainda que protegendo-se dos pingos e agitando guarda-chuvas. Expectativas ruins que ficavam por conta do boicote em razão da chuva caíram por terra e se misturaram com os pequenos afluentes que transcorriam até a boca de lobo.

Rita Carvalho chegou 15 minutos antes do início do evento que estava marcado para as 09:00hs. Ela exibia olheiras ocultadas pelo lápis marrom claro que mantinha o seu olhar sóbrio; os lábios exageradamente vermelhos de batom e o cabelo marrom claro, desidratado e amarrado em forma de rabo de cavalo, falavam sobre pressa e ineficiência do despertador.  Rita Carvalho é portadora do vírus HIV há 6 anos. Descobriu esse fato quando fazia o pré-natal, grávida de Maria Clara que entra em cena com cara de sono, bebendo café num copinho de plástico. Maria Clara tem 6 anos. Acabou de perder o dente da frente e, por isso, fica tímida quando ri. Ela diz que quando crescer quer ser médica para cuidar da mãe. Mediante o trabalho de negativa (uso de medicamento AZT) feito no período de gestação, Maria Clara nasceu com o sangue isento do vírus ativado no da mãe dela[2]. Ela é a minha luz, Rita Carvalho disse uma vez, entre sorriso, para Jesuíno.

O seminário ocorreu com a presença de preletores renomados como um Juiz Federal da Vara do Trabalho e uma Advogada militante que teve o rosto exibido na capa da revista Época numa edição da qual se desconhece o mês. O primeiro explanou sobre os direitos fundamentais que contornam a relação empregado e empregador, dando ênfase ao vetor legislativo da indiscriminação e da indenização advinda de despedida arbitrária com base em fundado preconceito. Uma informação importante foi digna de nota: o empregado é desobrigado a informar que é portador do vírus, salvo em situações que a função que irá exercer envolve os meios de contágio do vírus. E nesta hipótese, o sigilo da empresa guarnece o empregado de qualquer embaraço por parte dos colegas de trabalho, bem como a relocação daquele em outro departamento condizente com suas necessidades especiais. À frente, falando sobre garantias processuais na hipótese de danos morais consumados na relação trabalhista, deixou claro que prima pelo sigilo quanto a publicidade do processo judicial no qual a pessoa com vírus HIV/AIDS é parte. É um posicionamento que pode levantar algumas questões, as quais Jesuíno mentalizou: O sigilo, apesar da benesse da discrição, não torna o portador conivente com o preconceito? O decreto de sigilo, intraprocesso, não atrai mais publicidade, já que mencionada medida se reveste de uma irresistível atração por parte dos que gerem a movimentação processual, criando um desagradável paradoxo, portanto? Por que a pessoa com HIV/AIDS tem ainda que se esconder?

Num segundo momento, a mencionada Advogada, gaúcha, jovial, aparentemente na casa dos 50 anos, detentora de uma notória inteligência emocional, iniciou sua preleção sobre sexo e preconceito. Ela explanou sobre sua história, a perseverança que aprendeu a desenvolver a partir do momento em que descobriu ser portadora do vírus e do engajamento na luta por inclusão dos seus irmãos de sangue. Após a exposição das memórias de combatente, ensinou a platéia, mediante a moldura de um clitóris e um enorme pênis de borracha, a como satisfazer as mais profundas fantasias eróticas usando preservativos dos mais variados tamanhos e cores, tanto para o hetero quanto para o homossexual. A platéia ria e Jesuino, inesperadamente, quando olhava aquele imponente clitóris e ao mesmo tempo as acadêmicas do curso de enfermagem que auxiliavam a preletora, se viu ocultando uma abrupta ereção enquanto mais gargalhadas irrompiam em extâse ao seu redor. Tratava-se de um campo minado e quanto mais cauteloso Jesuino o quisesse ser acabaria pisando numa mina que, acionada, explodiria em mais risadas escandalosas.

Apesar do latente senso moral esboçado em anos de audição de sermões cujo objetivo marginalizavam a sexualidade com forte tom repressor, Jesuino se deixou levar pelo ambiente solto e maduro que guiava as questões referentes a sexualidade. Por um momento, ele se viu fora da jaula e pronto para vislumbrar o seu genuíno eu aceito no recinto. A ideia formava uma imagem tentadora: Jesuino num strip tease ao som de Vale Tudo diante de acadêmicas de jaleco branco que gritavam por uma peça de roupa. Ele saboreou o devaneio por um tempo.

O que mais chamou atenção de Jesuino foi o derradeiro ponto de vista da preletora que mencionou os benefìcios da monogamia e do sexo pró-casamento, pois em suas andanças ela chegou a um denominador comum: promiscuidade aumenta a probabilidade de contágio do vírus e de sua expansão. Além, mencionou a importância do afeto numa relação a dois. Jesuino ficou pasmo. Mentalizou outra pergunta: será que posso convidá-la para dar essa palestra na minha igreja?...

No coffee break, Maria Clara corria no pátio com outras crianças. Depois voltava e pegava várias coxinhas recheadas de queijo e mussarela, colocando-as de uma vez na boca. A mãe a vigiava enquanto conversava com a Advogada. A vida poderia voltar a ser simples como o é para Maria Clara? pensou Jesuino enquanto bebericava chá. Ao fim do evento, Maria Clara dormia no colo da mãe que entrou no carro de um amigo, satisfeita e rindo das piadas que compartilhava com o motorista. A criança dormia em seu colo com o estômago cheio de suco e salgado. O rosto plácido dela se distava a cada metro galgado pelo carro e Jesuino se despedia de Rita com um aceno de mão. Noutro dia, Jesuino estaria rescindindo o contrato de estágio com a Casa Lar em prol de outras experiências, outras descobertas. Essas pessoas são luzes num dia chuvoso, ele concluiu antes de passar pelo portão.

 


[1] O mencionado seminário ocorreu no mês de abril de 2008 sob a idealização e implementação do Grupo União Pela Vida.

[2] Quanto ao trabalho de negativa nas gestantes soropositivas veja aqui http://www.abcdasaude.com.br/artigo.php?212

Almoço. A parte mais fatídica do dia. As persianas beges amoldavam os reflexos do sol em colunas que deixavam o chão mais claro e mais quente a medida que o astro tomava o centro do palco que é o céu. Jesuíno já sentia as contrações estomacais advindas da fome. Algumas xícaras de café tentaram satisfazer a fera, mas não chegaram nem perto de alimentá-la. Fome. Que conceito!

Isabel entra em cena, ruidosamente, pois os saltos que usava geravam ecos nos tacos do piso, sendo difícil tornar a presença dela em um segredo. Pelos passos Jesuíno fez idéia da pessoa que entrava na Casa lar: alguém que gosta de chamar a atenção. Ao entrar na sala do estagiário de Direito, Isabel exclama: 

Oiiiiiii!!! Nossaaaaaaa….que gatinho é esse advogado. Vem cá me dá um abraço.

A voz do visitante ficava entre o barítono e o tenor, o que causou estranheza a Jesuíno que deu um abraço meia – boca, constrangido com a gratuita intimidade que Isabel proporcionava. Ao chegar perto, ele a estuda: blusinha vermelha, saia preta, sandálias igualmente pretas, bolsa de couro com detalhes de alumínio, brincos redondos e chamativos, cabelos artificialmente loiros que alcançavam a nuca, nariz adunco, olhos castanhos claros e joviais, barba por fazer, lábios finos e grandes, queixo pontudo, saliente pomo de adão….saliente pomo de adão!?!? Isabel é…

Isso mesmo, benhê. Sou traveco e não tenho vergonha de ser quem sou. Já pode tira essa cara de desconfiado. Meu nome atual é Isabel, mas minha mãezinha colocou na certidão Eugênio.

Jesuíno segurou a mandíbula inferior. Era a primeira vez que contemplava um travesti. Sua surpresa ficou reprimida. Se Eugênio/Isabel se deparasse com mais uma reação de espanto, talvez se irritaria. Ambos sentaram e começaram a falar sobre si mesmos: ela com naturalidade e ele tentando forjar alguma discrição. Eugênio bebericava café enquanto dobrava as pernas, recentemente depiladas, postura que despertava um ar elegante, como se a masculinidade suplantada viesse a superfície em momento oportuno:

Então você é o estagiário de Direito do projeto de assistência jurídica. Hummmm, legal. Tem namorada ou namorado?

– Sou hetero, Isabel. Namorada. O nome dela é Carla. Ela trabalha no Supermercado Bom Preço. Se você for na padaria, irá vê-la. Uma baixinha de cabelo liso, morena, com bastante espinha na cara.

– Ah, sei quem é. Vocês formam um casalsinho bonito. Ah, deixa te pergunta: ela é gostosa?

– Como assim?

Isabel gargalhou diante do rosto vermelho de Jesuíno que cada vez mais se sentia acuado ao abrir o armário de sua intimidade para uma(um) estranha(o) que dinamitava o seu mundo a partir de perguntas que não deixavam espaço para formalidades:

– Vai ter que se acostumar comigo menino! Eu sou assim. Sincera demais. Mas desculpa, mudo de assunto se você se sentir ofendido.

– Tudo bem. Só estranhei a pergunta.

Eugênio se levantou e começou a cantarolar uma música qualquer. Olhou a prateleira, posta à esquerda da mesa, que estava cheia de informativos sobre prevenção e preservativos, muitos preservativos. Ela olhou estes, encerrando o cantarolar. Tocou-os no silêncio. Novamente bebericou café e voltou a sentar, retomando a canção:

– Posso te perguntar uma coisa, Isabel?

– Até duas, se você tiver pique. Hahahahaha.

– A partir de quando você decidiu ser Isabel?

– Desde a infância. Eu era um menino normal. Gostava de carrinho, futebol e de solta pipa. Mas, ficava mais tempo brincando de boneca com a minha irmã. Meu pai chegou até bater em mim quando eu dormia com a barbie dela.

– Você teve algum relacionamento homossexual na infância?

Repentinamente, Jesuíno se sentiu confortável, no controle. Não precisava mais criar defesas, pois as perguntas delicadas atingiam outro alvo. Ele colocou os braços a frente do peito, ganhando um aspecto de gravidade, típico de Larry King numa entrevista:

– Sim, transei com o meu primo no banheiro quando tinha uns 12 anos. Fui o passivo. Gostei da fruta e não parei mais. Cheguei a ter um namorado aos 15. Quando contei pra minha mãe que gostava de menino, ela ficou branca. Pensei que ela teria um troço. Naquele dia eu apanhei do meu pai como um condenado. Fugi de casa e fui morar com o Wagner…

Ele(a) parou a narrativa. Engoliu saliva e Jesuíno pode ver aquele pomo subindo e descendo. Retomou o fio da história:

– Wagner foi o grande amor da minha vida. Ficamos juntos um bom tempo. Ele era rico e não deixava faltar nada pra mim. Ele fazia de mim uma princesa, sabe? Então, estudei e me formei em educação física. Comecei a dar aula. No colégio, sempre deixei claro minha opção sexual e por isso fui discriminado várias vezes. Mas, se eu te conta você não acredita… recebia cantada de aluno, de moleque!! Acredita??? Parei de dar aula na escola porque o Wagner tava com ciúme. O filho da puta me abandonou e  acabei largando uma carreira docente brilhante por causa dele.

Silêncio amaina sobre o quarto. O sol, contornado por uma nuvem, distribuía tons azuis nas paredes como se uma grande e invisível parte do oceano balouçasse ali. Eugênio vira o rosto para a esquerda, mas não consegue disfarçar o esboço de choro, pois Jesuíno viu a ponta vermelha que se formou na ponta do nariz e ouviu o fio de voz que acompanhou a última sílaba. Ele(a) engole mais saliva, respira fundo e volta às memórias:

– Os alunos me amavam e eu os amava. Essa era a minha vida. O Wagner não tirou só o meu sonho como minha…porraaaa…odeio falar sobre isso.

– Você não precisa falar sobre isso, Isabel, ok?

Não, tudo bem. Você liga se eu chorar?

– Não, não ligo Isabel.

– Meu pai não me deixava ir em casa ver a mamãe. Ele jamais ia permitir que veado algum entrasse na casa dele. Só fui voltar a ver a minha mãezinha quando ela morreu. Vi de longe o enterro dela…desculpa

Eugênio chorou. Por que as pessoas falam as coisas mais íntimas e fortes para mim? Não sou psicólogo, pensou Jesuíno. Alguns lenços de papel foram usados. Recomposto, Eugênio olhava para o chão e voltava ao lugar da dor. Ah, pelo amor de Deus, chega de memórias. Por que jogar sal em velhas feridas?:

– Minha mãe morreu com o lenço que eu dei pra ela. Ela usava esse lenço na cabeça porque era grande. Todos os dias me lembro dela. Do bolo dela. Ela fazia um bolo de chocolate como ninguém. Hoje ninguém faz bolo de chocolate pra mim.

Eugênio voltou a chorar. Jesuíno estava disposto a encerrar o assunto, pretendendo falar sobre outra questão, a do mel que deveria ser distribuído para os que visitavam a Casa. Eugênio queria terminar e não libertou Jesuíno enquanto suas lembranças não fossem jorradas:

– Não sei porque contei isso pra você. Raramente falo alguma coisa tão íntima pra alguém apesar de ser tão indigesta às vezes. Mas é que tem algo diferente em você; algo que traz paz, confiança. Você é crente?

Jesuíno enche o peito, saindo o Larry King para dar espaço a um pombo, e responde, saboreando as palavras:

– Sim, sou crente. Freqüento a Igreja Batista Nova Canaã.

Eugênio sorriu satisfeito, já que sua desconfiança se mostrou verdadeira. Conversaram mais um pouco sobre a Casa e os planos que cada um tinha em mente. Eugênio saiu de cena, cantarolando ao abrir o portão para subir a rua, rumo a destino que só ele conhecia. Para Jesuíno tanto era Eugênio quanto Isabel. O nome não importava, pois a partir daquele dia buscaria ver a alma ferida de alguém cuja identidade híbrida não escondia a singularidade. A fome já tinha passado quando Jesuíno resolveu almoçar.

Segunda Feira de manhã. Manhã que se recupera da gélida névoa da noite anterior. A grama do quintal da Casa Lar, molhada e fresca, traz o prenuncio de um inverno rigoroso. Mas o verde cheio de gotas lembra um rio de pequenos diamantes que brilham convidativos quando banhados pelo sol.

Kassandra entra em cena. Ela tem, aparentemente, 33 anos, é mãe de uma filha na idade de 05 anos e mora com a mãe. Afro brasileira, criada na cidade de Curitiba, Kassandra exibe um rosto duro, marcado por sofrimento, e mãos de aparência masculina. Ela senta na cadeira na frente da mesa. Jesuíno, do outro lado, jovem estagiário na área jurídica, pouco experimentado em interação social, começa o diálogo apreensivo, mas desejoso em encontrar compaixão ou, pelo menos, um meio de exprimi-la:

– No que posso ajudá-la?

 – Preciso de uma indicação de emprego.

– A senhora já trabalhou

– Já trabalhei de doméstica em Curitiba. Mas eu queria vê se posso fazer outra coisa.

– Bom, seria mais fácil pra senhora trabalhar naquilo que já fez um dia.

 Kassandra envia um olhar sombrio ao rapaz. A observação dele não satisfaz a expectativa sobre uma palavra mais expansiva, mais esperançosa. De repente, o vulcão adormecido dentro dela começa a eclodi:

– Moço, quem vai contratar uma empregada aidética?

Jesuíno não responde. Por mais flexível que fosse, qualquer tentativa de afastar a verdade do HIV/AIDS seria vazia. A neve derrete, mesmo que mais de uma tonelada seja lançada no mar de fogo. Kassandra começa a chorar no silêncio. Alguém aciona a descarga no banheiro, passos no corredor, portas se fechando. Há muito tempo queria chorar, mas não tinha espaço suficiente. Jesuíno se sente desnecessário naquele ambiente. O máximo que podia fazer era trazer um copo d’água e um lenço de papel, e é o que faz.

– Kassandra, eu entendo que…

 – Sabe moço, as pessoa chama a gente de podre, de morto na nossa cara. Eles não sabe o que a gente passa na vida. Eu to morando com a minha mãe, mas eu não agüento ter que depender dela. Eu tenho uma filha pequena e quando ela pede leite, dá vontade de dá um tiro na cabeça porque não tenho dinheiro e ela começa chora. Dá vontade de morrer mesmo.

– Olha Kassandra. O que essas pessoas dizem é bobagem, certo? Você não está morta e não vai morrer se cuidar de si mesma e tomar os remédios certinho. A sua filha precisa de você.

Jesuíno tenta afastar a sombra negra do lamento, da autocomiseração, a qual Kassandra está imersa. A tragédia tem fim e se ela começar a olhar a realidade com outra perspectiva, talvez sua vontade de superar possa ser despertada e aos poucos comece a se adaptar àquele contexto. Ela enxuga com as costas das mãos as lágrimas que correram no negrume perto do nariz.

– Eu sei moço. Eu acredito em Jesus e na Nossa Senhora. Eu vou vencer sim. Tenho fé em Deus.

– Isso é bom. A sua fé Kassandra vai te ajudar muito. Quanto ao emprego, a senhora posso encaminhá-la a Agência de trabalhadores. Pode ser que algumas residências estejam precisando de uma diarista. De uma coisa a senhora pode estar certa: ninguém é obrigado a dizer que é portador do vírus HIV/AIDS, a menos que seja uma situação necessária para preservar a saúde da outra pessoa. Mas ainda assim ninguém tem o direito de discriminá-la. Se isso acontecer, a senhora não pense em duas vezes em vir pra cá.

O expediente do bom estagiário caiu bem no momento. Jesuíno, o defensor dos que não têm defesa. O rapaz começa a se sentir elevado por causa do bom mocismo que ostentava. Posteriormente, chegaria a conclusão de que estava sendo egoísta por mais que uma primeira impressão informasse o contrário.

– É. Ta bom. Moço, posso te contar algo?

A pergunta soou como denúncia. Kassandra estava em busca de ouvidos e por algumas palavras que fossem verdadeiras. Ela já conhecia os discursos da não discriminação, combate ao preconceito e inclusão, mas intenções declaradas não trariam o leite para a filha dela. Por isso, seu desinteresse, velado na pergunta, sobre a posição de Jesuíno, era um pedido de cala boca – me escute.

– A senhora quer falar sobre?

– Eu peguei AIDS por causa de uma mulher. Ela era bonita igual a Kelly Key. Eu e o meu ex- marido a gente morava em Curitiba. Lá tinha um bar que nós gostava de ir. Ela apareceu do nada no bar e então a gente se conheceu. Ela era muita simpática, gostava de beber e conversar.

Antes de continuar, Kassandra sorriu, toda nostálgica. Ela queria sorrir há muito, mas não tinha espaço.

Depois de uns dias, ela apareceu de novo no bar e puxou conversa, pagou cerveja. Eu comecei a gosta dela sabe? O meu ex tava ficando com ela, mas eu não sabia. Um dia ela apareceu lá em casa, e eu tava sozinha. Então ela começou com uns papo pro meu lado de que gostou muito de mim e queria morar com a gente porque ela era sozinha no mundo e tal. Daí a gente começou a se beijar e fomo pro quarto, tiramo a roupa e começamo a fazer amor. Não demorou pro meu ex chega e entra no meio.

A descrição da cena deixou Jesuíno ruborizado. Evangélico, de perspectiva conservadora, começou a reprimir as imagens pornográficas que dançavam na sua mente a partir da vívida narrativa de Kassandra: seis pernas se enroscando em lençóis e a cama rangendo, enquanto suspiros e suor marcavam o ambiente com uma sensualidade grosseira e espontânea. Cabeças, braços e joelhos juntos, como uma aranha humana criada a partir de um proibido desejo. Ele já não a escutava, pois a imaginação trovejava tanto que as palavras de Kassandra era somente um som de fundo ao redor do pensamento eloqüente.

 – A gente fazia amor quase todo dia. Ela morou com nóis bastante tempo. Só eu e o meu ex marido trabalhava, ela ficava a toa e dormia até tarde. Um dia ela falou que a prima dela tava doente e ela precisava ir pra São Paulo. Pegou as coisa e foi embora, sem se despedir da gente. Passou um tempo e eu comecei a ficar doente, a vomitar bastante e ficar com muito frio. Aí eu fui no médico e ele deu uns remédio. Os remédio não adiantou nada e então fiz uns exame. Daí que falaram que eu tava com AIDS.

Kassandra volta a chorar, mas dessa vez faz o possível para emperrar as lágrimas. Era difícil para ela assumir o fato, aliás, seria difícil para qualquer um. Além da culpa, o sentimento de raiva e desespero se misturavam ao passado, levando-a ao entorpecimento; a um pessimismo que lhe municiava de razões para acreditar que estava morta. Mesmo que uma fagulha de fé pudesse apaziguar o tumulto, seria necessária uma nova disposição de espírito para não olhar mais para trás e continuar a caminhar.

Kassandra sai de cena. Despede-se friamente de Jesuíno, prometendo retornar numa outra oportunidade. A inclinação do sol deixou as sombras mais pesadas, e de repente tudo ficou moldado a uma pintura de carvão. Jesuino beberica café com um olhar distraído para a janela que dava para um prolongado pensamento, um de preocupação.